Na calçada da fama

O surfista catarinense Alejo Muniz,
que deixou sua pegada para sempre na
badalada calçada de Hossegor,
fala sobre a carreira e o futuro.
Texto e Fotos: Caio Guedes

Alejo Muniz é um surfista conhecido da galera da Solto desde os 12 anos. Na época ele já era multi-campeão catarinense, campeão paulista e líder do ranking brasileiro da sua categoria. O moleque já tinha muito estilo, é incrível como aquele mini-homem já rasgava forte, chutava a rabeta, mandava aéreos...

Em 2005 foi campeão mundial sub-15 na França, trocou de patrocínio e mudou de estilo de vida. Até então, Alejo morava com os pais na Barra da Lagoa, treinava todos dias na praia Mole com seu irmão Santiago e competia em todos os campeonatos que conseguisse. Com a mudança de patrocinador, Alejo foi morar no Guarujá, passou a treinar com Paulo Kid e deixou de lado a maratona de campeonatos. Passou a viajar para picos de ondas perfeitas (México, Hawaii, Chile, Indonésia, Peru, entre outros) e aprimorou a sua linha de surf. Desde então, compete apenas nos eventos Pro-jr e algumas etapas do WQS no Brasil.

Em 2007, entrou como convidado na equipe brasileira no mundial da ISA em Maresias e acabou vice-campeão. No ano de 2008 estava de novo na equipe brazuca que foi ao ISA games na França e ganhou o caneco de campeão mundial sub-18. Na volta foi recebido com festa, desfilou em carro de bombeiros e toda pompa.

O título da ISA também lhe deu o direito de disputar as triagens do WCT na França. Dessa forma a revista Solto e o Alejo marcaram de se encontrar durante o Quiksilver Pro France para realizar esta matéria.

O "young gun" brasileiro avançou até a final das triagens do WCT e terminou em terceiro (só o primeiro entrava para o evento principal). Mesmo assim não foi tão fácil produzir a matéria, porque Alejo queria aproveitar ao máximo a experiência entre os tops e passava o dia inteiro dentro da área reservada aos atletas observando tudo. Quando finalmente conseguimos fazer uma sessão de fotos o moleque rendeu muito... aéreos de front e de back, rasgadas potentes, laybacks improváveis e batidas retas. Fazia muito tempo que eu não o fotografava e o seu estilo seguia o mesmo, com as mãos estendiadas e os dedos bem separados.

Fora d'água segue o mesmo menino quieto, tranquilo que sempre cativou a todos. E o mais importante: consciente... não está deslumbrado com tudo que vem acontecendo. Seu nome está na recém criada "calçada da fama" de Hossegor, ao lado de outros nomes que ganharam títulos importante ali, como Kelly Slater, Tom Curren, Tom Carrol e Joel Parkinson, mas o moleque segue humilde, porque sabe o que quer: que daqui há alguns anos as pessoas olhem para aquela pegada autografada e saibam quem é Alejo Muniz, sem que algum especialista tenha que explicar.

Quando fizemos a primeira entrevista contigo em 2005, você era considerado uma máquina de competir, não só pelos resultados, mas também pela quantidade de campeonatos que disputava (catarinense, paulista, brasileiro amador). Quais são as tuas prioridades e metas atualmente?
Sempre gostei de competir, acho que vem de família isso. Esse ano minha prioridade era conseguir minha vaga para o Mundial Pro jr. da Austrália, e foi um objetivo alcançado, junto com viagens para aprimorar meu surf.

Até 2004 você tinha uma rotina de treinamentos com o seu pai,  irmão e ainda os treinos na praia Mole... Hoje em dia como é a sua preparação? Quem é a equipe que treina contigo?
Eu moro no Guarujá atualmente, tenho a melhor estrutura para um atleta, treino com o Paulo Kid, preparo físico com o Ricardo Villalva e psicóloga com a diva.

Tu tens viajado bastante nos últimos anos. Fale das melhores viagens que tenha feito e para onde ainda quer ir:
Eu gosto bastante é do Hawaii, quando estou com meus amigos, meu irmão e altas ondas. Mas a viagem que eu mais gostei foi esse ano para Arica, no Chile, eu fui com o Marco Giorgi e o Jerônimo Vargas, foi uma semana de altas ondas sem ninguém na água, muita vibe.

Você saiu de casa para morar no Guarujá aos 15 anos. Como é morar longe da família? E quando você volta pra casa, em Bombinhas, o que curte fazer?
É, fui bem cedo morar longe, no começo foi difícil, mas eu sabia o que queria e com a ajuda da minha família, que se não fossem eles eu não seria nada hoje, me adaptei bem. Sempre que volto para Bombinhas, a primeira coisa que quero fazer é surfar em Quatro Ilhas, ver meus amigos e relaxar.

Você já foi campeão mundial grommet e junior na França. O que tem de especial esse lugar na sua vida?
Bom, a França é um lugar que me traz sorte, não sei porque, mas tenho uma boa conexão com o lugar, gosto muito de ir para a França.

Como foi a experiência de participar de uma etapa do WCT, mesmo que tenha sido só triagens e expression session? O que fazer para aproveitar ao máximo uma oportunidade assim?
Pra mim foi uma das melhores experiências que já tive. Não tive muita sorte nas triagens, mas fui bem na expression session, eu fiquei ligado em tudo que os melhores do mundo estavam fazendo, como se concentravam, equipamento, pranchas, etc...

Fale da expression session, que acabou premiando o Chris Ward em uma decisão polêmica?
Bom eu não culpo ninguém pelo resultado, os juízes tiveram sua opinião, mas quando vi filmado, achei que o meu aéreo tinha sido melhor e a galera da praia comentou também, mas foi bom como aprendizado.

O teu companheiro de varias viagens Wigolli aproveitou a estrutura do patrocinador para se enturmar com a máfia dos pros do local enquanto tu estava mais de canto. Tu chegou a trocar idéia com algum ídolo, tipo Slater ou o Dane Reynolds?
Eu não cheguei a falar com o Kelly ou Dane, mas sou amigo do Jeremy Flores, Miky Picon e dos brasileiros que estão no WCT. Sempre que posso tento perguntar algo para melhorar. Passei mais tempo com o Adriano de Souza, onde fiz freesurf e conversei bastante. Ele é muito humilde e me passou um pouco do que ele sabe.

Quais as melhores valas que tu surfou na França?
Eu não lembro do nome da vala, só cai onde foi o campeonato e tinha altas.

Pensando na evolução do seu surf... em que estágio você se considera atualmente? O que falta aprimorar ainda?
Eu acho que estou evoluindo bem, não sei em que nível estou... Acho que ainda tenho que treinar e aprender muito para chegar no nível dos melhores do mundo.

Você se imagina no WCT em quantos anos? Existe um planejamento neste sentido na sua carreira? o que podemos esperar de ti nos proximos anos?
Eu tenho um planejamento sim, tanto é que tudo que eu faço é pensando no futuro. Não sei te dizer em quando tempo, mas acho que em 3 anos posso sim estar dentro do WCT.

E na escola, como faz pra conciliar?
Então, eu parei de estudar no segundo ano do segundo grau, por causa das viagens, fica difícil conseguir estudar, mas vou entrar em um programa de ensino a distância e em 2 anos termino.

E o assédio da mulherada?
Realmente o assédio existe, mas encaro de uma maneira natural e procuro aproveitar as boas oportunidades.