Pipeline "A rainha de Banzai"

Ela está a apenas poucos metros da areia e proporciona um dos tubos mais intensos, fundos e fortes do mundo. Verdadeiros cilindros perfeitos com água azul encobrem o surfista até ele ser expulso com uma baforada. Após o barrel, vem a redenção e os aplausos direto da areia. Espetacular. Crianças, turistas, locais, surfistas se tornam fotógrafos, configurando uma verdadeira arena. O preço de protagonizar o espetáculo e contracenar com esta famosa rainha é caro. Além de ser uma das ondas mais perigosas do mundo, pois quebra em uma bancada rasa com direito a muitas cavernas profundas, é preciso conquistar o respeito dos locais para ter direito de dropar a onda. Pipeline, além de ser o palco de alguns dos mais expressivos eventos da história do surf, é provavelmente um dos picos onde o localismo se torna mais expressivo em todo o mundo, com tradição e história. Texto e Fotos: Manoela D'Almeida

 


De Banzai à Pipe

Banzai Pipeline é na verdade um nome composto trazendo o nome do reef break, Pipeline, e Banzai, que é o nome da praia que o reef se localiza. Tudo isso faz parte do Ehukai beach Park, situado em Pupukea, ilha de Oahu no Hawaii. O nome Pipeline surgiu quando o filmaker Bruce Brown, autor do clássico filme de surf Endless Summer, estava gravando imagens dos surfistas californianos Phil Edwards e Mike Diffenderfer. Enquanto Edwards pegava ondas em um potente break, Bruce olhou para a avenida principal onde haviam canos de concreto para uma construção, e Diffenderfer sugeriu nomear "pipeline" o break, devido ao seu formato cilíndrico. Em inglês, pipeline quer dizer cano. Foi assim, a partir deste episódio, que o pico passou a ser chamado de Pipeline. Com o tempo, a potente onda passou a ser objeto de desejo de muitos surfistas e uma parada praticamente obrigatória dos profissionais do surf. A elite mundial se reúne nesta arena nos dias clássicos da temporada de inverno do surf havaiano. A onda de Pipe funciona melhor com swells vindos de oeste, mais constantes durante o inverno, que vai de dezembro a março. A bancada é muito rasa, configurando-se como uma das ondas mais perigosas da mundo. Não é pouca coisa não. No seu fundo existem diversas cavernas que podem facilmente trancar a cordinha do surfista, fato que já aconteceu com muitos surfistas experientes. O big rider baiano Danilo Couto, que mora há mais de dez anos no North Shore, conta que o reef é composto de lava vulcânica, elemento que deu origem a todas as ilhas do Hawaii. Ele mesmo confessa já ter ficado preso em um dos buracos de Pipe. Na verdade, existem quatro ondas que são associadas à Pipeline. Existe a esquerda, conhecida como First reef, que na verdade é a esquerda de Pipeline, a onda mais surfada e fotografada. O lado direito desta onda é conhecido como Backdoor, uma potente direita que proporciona tubos mais longos que a esquerda. Quando as ondas passam de 12 pés, surge uma onda mais atrás, conhecida como second reef, chamada pelos surfistas de Banzai. Quando rolam swells gigantescos surge o third reef, que foi poucas vezes surfado e raramente quebra. O big rider das antigas Greg Noll foi um dos primeiros a surfar o third reef na remada, o que na época parecia ser impossível.

 


DaHui Shootout de Gala

Na verdade, existem quatro ondas que são associadas à Pipeline. Existe a esquerda, conhecida como First reef, que na verdade é a esquerda de Pipeline, a onda mais surfada e fotografada. O lado direito desta onda é conhecido como Backdoor, uma potente direita que proporciona tubos mais longos que a esquerda. Quando as ondas passam de 12 pés, surge uma onda mais atrás, conhecida como second reef, chamada pelos surfistas de Banzai. Quando rolam swells gigantescos surge o third reef, que foi poucas vezes surfado e raramente quebra. O big rider das antigas Greg Noll foi um dos primeiros a surfar o third reef na remada, o que na época parecia ser impossível.

 


Pipe Masters 2007: O Pipe Masters da despedida

As ondas não proporcionaram o espetáculo conferido em muitas edições anteriores, mas, mesmo assim, o evento teve toda a magia de um verdadeiro Pipe Masters. Locais do pico como Jamie O`Brien e Shane Dorian pegaram grandes tubos nos primeiros dias do campeonato. Porém, grande parte da competição, incluindo o quinto round e até a grande final, tiveram que ser realizados em ondas pequenas no reef break de Off the Wall, com opção de Backdoor e Pipeline. As ondas desfavoráveis para uma final de Pipe Masters acabaram acarretando a desclassificação de muitos nomes tradicionais no evento, ainda nas quartas de finais. Entretanto, nos primeiros dias da competição, deu para sentir a potência dos canos de Banzai Pipeline.O evento foi momento de despedida de muitas lendas do surf. Personagens ilustres do esporte que fizeram história em Pipe, como o quarentão australiano Mark Occhilupo. Campeão em Pipe em 1985 e mundial em 1999, Occy deu adeus não apenas à competição, mas sim a sua trajetória marcante no circuito mundial. Ao finalizar sua bateria contra Troy Brooks, saiu carregado da água pelos seus companheiros australianos, além dos locais Bruce e Andy Irons. À noite, a despedida do grande green iguana Occy foi embalada pela melodia de Donavon Frankenreiter, em uma festa realizada em Waimea Bay. Donavon chamou Occy no palco e dividiu com ele o microfone em três músicas. Para a supresa de todos, o aussie soltou a voz cantando Jimi Hendrix, rebolando e proporcinando momentos únicos.

Outro australiano, Michel Lowe, também se despediu da vida de competidor durante o Masters deste ano, sendo prestigiado pela família e demais conterrâneos. Mas a grande incógnita gira em torno do octa-campeão mundial Kelly Slater, que deve deixar o circuito em 2008. Kelly foi eliminado do evento pelo californiano Chris Ward, que fez uma bela competição, assim como Ian Walsh, que acabaram, juntos, eliminando os favoritos do campeonato. O americano da Flórida declarou que quanto mais pensa sobre o assunto, mais tem vontade de parar de competir. No entanto, Kelly não confirmou uma aposentadoria total, revelando que competirá apenas em algumas etapas do circuito.

O Pipe Masters 2007, que apesar de ter, como sempre, toda sua característica havaiana (é a etapa que mais conta com a participação dos locais), acabou sendo realmente um evento australiano. Mesmo com o show à parte dos locais feito nos cilindros de Pipe, e de Sunny ter posto suas garras para fora (confira mais informações no box) a competição acabou sendo dominada por australianos. Bede Durbidge não só levou o título do Pipe Masters, como também foi o grande campeão da Tríplice Coroa, que neste ano completou sua 25ª edição. Para quem não sabe, a Tríplice Coroa é composta pelas últimas etapas da divisão de acesso, o WQS, que ocorre nas praias de Haleiwa e Sunset, e pelo WCT de Pipeline, etapa final do Circuito Mundial. O ano de 2007 realmente foi da Austrália, pois Mick Fanning levou o título mundial masculino e Stephanie Gilmore levou o título feminino. Bede completou a festa dos cangurus levando a Tríplice, que não saía da cabeça de um havaiano desde 1999. Moral lá em cima.

 


Os Mestres do Masters

A primeira edição do Pipe Masters aconteceu em 1971, fundada por Fred Hemmings e organizada nas últimas décadas pelo diretor executivo da Tríplice Coroa, Randy Rarick. Do seu surgimento, até os dias de hoje, muita história, com muitos recordes quebrados, diversas lendas foram criadas e fizeram fama no cilindro da esquerda de Pipe. O havaiano Gerry Lopez, conhecido como Mr. Pipeline, foi um dos que se destacou na história do evento. Gerry foi campeão por dois anos seguidos, 72 e 73, que marcaram os primeiros anos do campeonato que foram televisionados. Gerry fez história, sendo um dos primeiros a ir mais fundo no tubo de Pipe. Com a divulgação da televisão, acabou estrelando alguns filmes de hollywood.

Tom Carrol e os irmãos Derek e Michel Ho foram outras lendas, assim como o sul-africano Shaun Tompson, que foi um dos que mostrou que Pipe também pode ser dominada de backside. Carol foi o primeiro a ser tri-campeão do evento, dominando a arena por muitos anos. Mark Ochilupo foi campeão em 1985 mostrando ao mundo que nem só os havaianos dominam a onda. Kelly Slater, que foi revelado em Pipeline, acabou perdendo nas semi-finais em 1991, mas nos anos seguintes subiu ao lugar mais alto do pódio. Até hoje, Kelly Slater foi o surfista que mais coleciona títulos em Pipe, totalizando 5. Mas Andy Irons chegou com tudo nos últimos anos, protagonizando uma das finais mais marcantes da competição em 2005. Atualmente Andy já está chegando perto do recorde de Slater, colecionando quatro títulos. Vamos ver até quando vai esta briga.

 


O Localismo: Welcome to Hawaii. Now, Go Home

Com tanta atenção e divulgação através do campeonato Pipe Masters, começou a ocorrer um intenso movimento de surfistas no North Shore durante a temporada de inverno. Através dos anos, muitos pegaram tubos memoráveis, enquanto outros perderam a vida. Um dos locais e melhores tube riders do pico, o havaiano Braden Dias, diz que já acompanhou muitas pessoas perderem a vida em Pipe: "O lugar é realmente muito perigoso. O localismo existe aqui para proteger a onda e para evitar que as pessoas se machuquem". Braden atualmente lidera e faz parte de um grupo de surfistas de Pipeline, o grupo se chama Pipeline Posse: "Não se trata de um grupo fechado, e sim amigos que passam tempo juntos e amam aquela onda. Recém lançamos um dvd e temos uma marca".

É comum ver o grupo que envolve Jamie O`Brien, Kalani Chapman e Jason Frederico usando bonés e camisetas do Pipeline Posse. Segundo o big rider Danilo Couto, os integrantes do Pipeline Posse dominam o pico de tal maneira que as ondas ficam para eles: " Há dez anos atrás era muito mais fácil de surfar Pipe. Atualmente, estes grupos realmente dominam a onda e para conquistar seu lugar ali é preciso mostrar muita dedicação, atitude e respeito dentro e fora d`água", conta o big rider que ano passado fez um tubo em um mar de 15 pés plus que foi eleito o melhor barrel da temporada.

Couto conta que a imagem dos surfistas brasileiros não é das melhores no North Shore: "Em geral o brasileiro não é bem visto no Hawaii. Normalmente são vistos como fominhas, como aqueles que chegam em bando, falando alto e não mostrando muito respeito". No entanto, o baiano afirma existirem exceções: "Existem profissionais havaianos que viajam pelo mundo e sabem que as coisas não são bem assim. É algo cultural do brasileiro falar alto, diferente dos americanos e australianos que chegam no Hawaii com uma postura muito mais discreta".

Outro aspecto que Couto aponta para o localismo de Pipe vem da história dos havaianos. Eles já tiveram o território tomado pelos Estados Unidos, tiveram uma grande ocupação de chineses, japoneses e euroupeus. Com a divulgação das ondas do North shore de Oahu, tem crescido muito a emigração de surfistas estrangeiros, e a população de brasileiros segue a linha: "É mais um povo tomando conta da terra deles. Havaiano não gosta disso. A propaganda para manter o North Shore um lugar country é grande. Uma frase comum de se ver nos carros aqui é Welcome to Hawaii. Enjoy! Now go Home!".

Couto diz que entende a proteção dos havaianos em relação à Pipe: "Eles moram em frente ao pico, passam o verão inteiro olhando o mar flat e, quando chega a temporada, eles querem surfar o quintal de casa. É claro que não vão deixar qualquer um surfar, ainda mais os que chegam em bando". Mas nem tudo está perdido, o local Ikaika Kalama diz ser importante respeitar os locais havaianos quando se surfa na região e que, com respeito e atitude, existem ondas para todos.

 


Ih,.. o Sunny tá doido?

O localismo havaiano é conhecido no mundo inteiro e, mais uma vez, ele apareceu com tudo na competição. Desta vez, a confusão foi entre o havaiano Sunny Garcia (1X campeão mundial) e o catarinense Neco Padaratz. Neco remou em uma onda que Sunny achou que era sua e os juízes maracaram dupla interferência (os dois atletas foram punidos). No entanto, o havaiano, indignado, jogou sua prancha em Neco e começou a perseguí-lo pela água. Um jet-ski veio em socorro do brasileiro que fugiu para praia, enquanto Sunny saía enfurecido da água. Neco ficou escoltado no palanque até Sunny se acalmar. Para quem viu de perto na praia foi um espetáculo tenso.

Sunny acabou sendo multado e perdeu a chance de ser convidado a participar do circuito em 2008. A briga com Neco aconteceu antes da repescagem, mas o havaiano acabou perdendo no round seguinte. Em 2007, Sunny passou 3 meses no presídio e mais seis em prisão domiciliar por sonegação de impostos. Depois de tanto tempo preso, estava com fome de surfar e de título, por isso não segurou a onda quando viu que o brasileiro poderia dificultar seu caminho, justamente no quintal de sua casa.

Neco ficou em choque por três dias, mas conseguiu voltar a competir, chegando até as oitavas-de-final, fazendo bonito e mostrando a garra do brasileiro. Em declarações após o incidente, Neco disse que superou o problema, que deseja paz para Sunny e que aprendeu com a vida e com seu irmão que, para ter respeito dos havaianos é preciso passar baterias. No fundo, Neco ficou com orgulho de sua atitude: "A onda também poderia ser minha, afinal sou um atleta, tenho uma camisa de competidor e estou aqui para surfar", contou ele, depois de passar na bateria contra o gaúcho Pedra.

O local Ikaika Kalama, surfista de tow in patrocinado pela No Fear, é um grande amigo de Sunny e disse que coisas deste tipo podem acontecer. Para ele, Sunny se sentiu pressionado por competir em casa, revelando ser muito difícil para um havaiano aceitar quando alguém de outra região tenta pegar sua onda no seu próprio quintal. Porém, Ikaika revelou que Sunny e Neco são amigos e que agora está tudo certo.