SEM FRONTEIRAS

Já estava mais do que na hora de entrevistarmos o Pato. Nosso colunista há dois anos, este catarinense é um dos surfistas brasileiros com mais quilômetros rodados atrás de ondas nas costas. De preferência, das ondas gigantes... Everaldo Teixeira é um louco. Louco pelo surf, pelo oceano, pela estrada e, principalmente, pela adrenalina. Esse cara vive intensamente.

Natural de Blumenau, com 3 meses de idade foi morar no balneário da Penha. Na praia do Quilombo, foi onde cresceu e pegou suas primeiras ondas. Um pico de esquerdas que chegam aos 8 pés perfeitos... Foi lá que ele adquiriu o vício do surf. Por: André Mantese Fotos: Caio Guedes e Divulgação

Começando pela atmosfera chilena. Qual sua relação com as ondas do Chile? Afinal é um local onde você tem uma história, afinidade. Conte pra nós um pouco sobre isso.
Eu amo o Chile. É minha segunda casa, não sei nem explicar direito... Só sei que adoro estar lá, gosto muito do povo chileno e principalmente de Arica. As ondas são minha paixão, eu gosto muito de surfar El Gringo, a onda é forte, tubular e perigosa... tudo que eu gosto, além de El Buoy, onde já surfei um dos melhores tubos da minha vida. Tenho muitos amigos por lá e me sinto em casa mesmo. Adoro aquele povo e amo aquelas ondas.

Qual a importância das ondas chilenas para quem realmente quer ser um surfista de respeito?
As ondas são grandes, tubulares e fortes. Se você quer ser respeitado, seja onde for, o circuito que for tem que treinar lá, ainda mais que elas estão ao nosso lado! Imagine que em lugares como o Hawaii fica difícil pegar muitas ondas, então você ter um lugar como esse para treinar perto de casa é otimo.

Como foi o incidente lá em que você quase se afogou, virando manchete nos jornais chilenos?
Coisa de iniciante, nunca tinha visto ondas daquele tamanho e a vontade de surfar era maior do que a consciência do perigo. Além de não ter nenhum equipamento certo para as condições, simplesmente queria testar meus limites e foi exatamente isto que aconteceu. Entrei no mar, onde não conhecia, com a prancha errada e, quando vi, estava em uma situação muito complicada de vida ou morte. Gracas a Deus meus instintos me livraram do perigo, por alguns momentos tive que usar de todos os meios de sobrevivência, foi fóda. Acabei saindo por cima das pedras, onde era o melhor caminho e como estávamos com uma equipe de filmagem fazendo um vídeo para a Mormaii, acabei saindo na capa do jornal, pois eles pensavam que éramos artistas de tv. Mas, logo em seguida, eu já estava surfando a onda ao lado, acho que esta situação me deixou muito perto desta onda... Por isto que amo tanto ela. Sem dúvidas, El Gringo é uma das minhas ondas preferidas no mundo.

Você, juntamente com o Burle e outros poucos "visionários" do surf brasileiro, formam uma primeira geração de surfistas profissionais que exploram suas imagens, sem estar presente nos "circuitos rotineiros", através de viagens em picos animais fazendo "freesurf". Quando você enxergou esse caminho na sua carreira?
Em 1994, quando fui ao Chile pela primeira vez. Lá, senti que gostava mesmo era de surfar ondas boas, fortes e grandes. Isso não tinha nos campeonatos, principalmente no Brasil. Então, resolvi ir ao Hawaii para ver como era, depois fui à Indonésia e lá fiz minha primeira capa em uma revista de surf, isto em 1996. Daí não parei mais, vi que o caminho era esse, mas que seria difícil romper algumas barreiras, teria que ser muito profissional e trabalhar muito sério. Foi o que fiz... Para você ter uma idéia, em 11 temporadas na Indo posso contar em uma mão as baladas que fiz, eu simplesmente me isolava em Uluwatu e ficava lá só treinando. Eu pensava: já que estão me pagando para isto, é isto o que vou fazer. E eu adorava aquilo. A cada momento fui tendo mais retorno de meu profissionalismo, logo vi que eu tinha que transformar tudo o que fazia em matéria, entrevista, em dinheiro... Foi isto que eu fiz. O resto é segredo. (risos).

Quando o mar está grande, no limite, você sempre é destaque pela sua atitude. A paixão pelas ondas gigantes, como você explica essa sede por riscos e adrenalina forte?
Eu amo o que faço, amo mesmo. Me preparo muito para quando o mar ficar gigante e, como falei, sempre tive uma intimidade muito grande com o mar, pois desde muito pequeno já estava na água. Aprendi a nadar na praia com minha vó aos 3 anos, meu pai era pescador... Vivi toda minha vida no mar, quanto maior o mar fica, mais à vontade eu fico. É uma coisa natural, eu gosto muito. Tenho medo, mas estou à cada dia aprendendo a controlar ele, sei que tenho limites e tenho um respeito enorme pelo mar, acho que esta minha relação com o oceano é muito saudável.

Teve algum dia na sua vida em que você passou por uma situação que tenha despertado de uma forma especial sua paixão pelo bigsurf?
Sim, em minha primeira semana de surf. Eu tinha começado a surfar numa segunda-feira e no domingo entrou um swell bem grande. Ondas de dois metros e meio e, lá no Quilombo onde comecei, atravessar a arrebentação era algo muito difícil. Eu mal sabia correr a parede mas entrei no mar, peguei várias ondas indo só de lado na parede. Foi incrível, todos na praia me aplaudiram, ali eu senti que tinha jeito para a coisa.

Você pagou o preço pela sua atitude né. Quando você estourou o joelho em Jaws... Conte um pouco desse momento difícil na sua carreira e como foi a superação psicológica e física.
Foi um acidente muito grave, destrui 85% de toda a estrutura do meu joelho esquerdo. Naquele momento, eu achava que não tinha limites, foi bom para eu ver que não é por aí. Vinha puxando muito o limite e fui inconseqüente, o resultado foi uma operação séria que, graças a Deus, o doutor Marckerque conseguiu resolver com muito sucesso. Depois disso, eu só pensava em me recuperar, passei 3 meses, 7 dias por semana, 12 horas por dia fazendo fisioterapia e tudo que era necessário para melhorar. Só tenho a agradecer à Michele, que foi a fisioterapeuta que mais trabalhou comigo, o doutor Joel, que me ajudou muito e toda a equipe que foi sensacional. Só que depois disso, eu tinha uma missão grande que era voltar a surfar aquela onda. No ano seguinte, quando voltei lá, na primeira onda que coloquei meu parceiro, na época o João Maurício, ele levou uma vaca animal e sofreu um acidente tão grave quanto o meu ou maior. Rompeu os ligamentos dos dois ombros e ainda teve uma lesão no músculo do peito, deixando ele fora d’água por um ano. Aquilo foi um choque. Imagina ter sofrido um acidente como o meu, no ano seguinte o seu parceiro... Nesta altura, minha cabeça estava a milhão, mas fui para fora, peguei a corda e surfei a primeira onda como se fosse outra qualquer. Tentei desligar minha cabeça do que tinha acabado de acontecer e deu certo. Surfei algumas ondas, o mar estava gigante neste dia... Foi incrível, pois depois o João foi para o hospital e eu ainda fiquei surfando, ele sabia que era imporante para mim e um outro amigo nosso levou ele para o hospital.

Você vive atrás de swell, como sua família lida com esta rotina nômade?
Elas adoram, desde que casei com a Fabiana minha esposa, em 2002, ela viaja junto comigo sempre registrando tudo, ela é a cinegrafista oficial. Adoramos não saber onde vamos estar amanhã. Só agora, com o nascimento da nossa filha Isabelle, é que fica uma pouco mais difícil, mas nada que tenha mudado muito. Ela tem 8 meses e já voltou do Hawaii, foi ao Chile de carro e já está aqui no Hawaii novamente.

Sobre o Sylvio Mancusi, seu grande parceiro atrás das ondas gigantes, como vocês se conheceram e como foi a idéia de trabalharem juntos?
Nos conhecemos há muito tempo, acho que em 92 na época do Guarujá, mais foi em 2003 que resolvemos nos juntar como parceiros. Tínhamos muitas coisas em comum e estávamos precisando um do outro naquele momento, foi perfeito. Tivemos vários acertos durante este tempo, sempre estamos apredendo um com o outro, nos conhecendo melhor, atualmente estamos em nossa melhor fase, já nos conhecemos bem e quando entramos no mar cada um sabe o que o outro quer.

Alguma história legal dessa parceria pra lembrar agora?
Em 2003, eu puxei o Sylvio na maior onda da vida dele, a onda era gigante. Mais tarde, descobrimos que ele tinha ido para a direita e o Peter Cabrinha para a esquerda. Esta onda foi a vencedora do Billabong XXL com 70 pés de face, mas o incrível é que os caras deram um jeito para que a nossa onda não participasse do prêmio. Foi fóda, mas tudo bem, estamos sempre nos fortificando com as lições.

Qual a melhor sessão já surfada?
Em 2005, onde surfamos o maior mar da história em Jaws, foi incrível! As ondas estavam gigantes, muito perfeito e nós surfamos algumas das maiores do dia, foi show, inesquecível.

Como foi a história do acidente na Reserva da Ilha dos Lobos em Torres? Parece que você perdeu um jet lá, né?
Cara foi irado. Vinha ouvindo falar desta onda há um bom tempo e naquele mês tinha visto algumas fotos da onda. Estava fissurado para surfar, vimos o swell e liguei para o Romeu Bruno para fazermos parceria, só que parece que todo mundo viu o mesmo swell e no dia estava praticamente todos os grandes big riders brasileiros lá. Foi incrível, pois assim que chegamos no pico, já vi um tubo animal quebrando, mal podia acreditar no que estava vendo. Ali, do lado de casa, uma onda como aquela... Fui o primeiro a surfar e, logo em minha primeira onda peguei um tubo animal, nem acreditei pois nem conhecia a onda, mas elas estavam tão perfeitas que foi um momento único. Peguei mais algumas e foi a vez do Romeu surfar, coloquei-o em uma onda muito boa também e fui para o fim da onda ver ele. Quando me liguei estava em uma parte da onda muito crítica, tive que descer com o jet, ela era muito cavada, cheguei na base e fui engolido. Dei muita sorte, pois após o caldo, o jet e eu estávamos lado a lado. Só que a alegria durou pouco, pois não tive nem chance de subir nele. Outra onda entrou e levou o jet de perto de mim. Neste momento, o falecido Zeca veio me pegar e me deixou onde o jet estava. Aí, quando peguei o meu jet, ele perdeu o dele, foi fóda. Tive que resgatá-lo e o jet dele não pegou mais. Nossa session terminou, pois tive que rebocar o jet dele para a marina e, quando voltamos, o vento já estava forte. Acho uma sacanagem não poder surfar esta onda, pois não afeta em nada um ou dois dias no ano que iríamos surfá-la. Para nós brasileiros e, principalmente para a comunidade local e o surf gaúcho, seria muito legal ter esta onda para usufruirmos, pois ela é disparada uma das melhores ondas da América do Sul.

O que você pensa sobre o tow-in no brasil? Picos possíveis de serem desbravados no futuro....
Cara, acredito que sim, devem existir boas ondas e seus dias. Basta ter tempo para um projeto assim. Mas tenho certeza que devem ter outras "Ilhas dos Lobos" pelo Brasil.

Como os gringos tratam os big riders brasileiros nos seus picos?
Com muito respeito, graças ao trabalho de vários atletas de ondas grandes o big surf brasileiro é muito respeitado, em qualquer lugar que chegamos temos o nosso espaço.

Quem você apontaria como principal(ais) responsável(eis) para que o surf de condições extremas chegasse onde chegou?
Sem dúvida, o Laird Hamilton. Ele e seus parceiros criaram toda uma nova perspectiva onde o surf nem era imaginado. Foi incrível quando eles começaram usando um Zodiac e, derrepente, estavam surfando Jaws. O Gerry Lopez foi quem falou para eles que existia uma onda enorme lá e que, com aquele tipo de equipamento eles poderiam surfá-la. A partir daí, não parou mais. À cada dia, era uma novidade e uma onda inédita sendo surfada. Nós mesmos, brasileiros, elevamos muito o nível do surf em onda extremas, pois todos os nossos atletas de ondas grandes eram ótimos surfistas de remada. Isso fez com que quando começamos a ir para o tow-in, já soubéssemos surfar uma onda grande.

Como foi q você começou a praticar o seu lado repórter-colunista-midiático? Quando viu a importância deste trabalho?
Logo no início da minha carreira, em 95, fui convidado pela revista Hardcore para escrever um texto sobre o Hawaii. Escrevi e eles gostaram... Eu comecei a gostar também, pois, além de trazer muitos benefícios para minha carreira, enriquecia meu português e minha literatura. Pois comecei a ler muito mais, passando a me interessar mais por todos os tipos de matérias e livros. Ainda hoje, tenho um certo desentendimento com o português, mas isto minha esposa conserta (risos). Agora não tenha dúvidas de que isto ajuda muito na carreira, pois você aprende a se expressar e começa a ter o retorno de seus fãns. Acho muito legal quando alguém chega e fala que gostou da minha última coluna, isto realmente me deixa muito feliz.

Quais os seus objetivos pra 2008 no surf?
Surfar novas ondas, lançar nosso filme, que está sendo editado e, se Deus quiser, pegar os tubos da vida.

Como você define o Pato surfista?
Um atleta que adora performance, experimentar coisas novas e gosta muito de ondas gigantes... Mas tem uma paixão especial pelas ondas tubulares. Me considero um desbravador.

E o pato pai de família?
Eu amo minha família. Eles são tudo para mim, a coisa mais importante da vida, meu porto seguro. Acho que estou me saindo bem, elas viajam comigo o tempo todo e formamos uma família muito legal, não conheci nada melhor do que ser pai.

No que você pensa quando senta no jet e sabe que vai enfrentar massas d’água que podem lhe tirar a vida de uma hora para a outra? Algum ritual pessoal antes de enfrentar os desafios mais importantes?
Sempre que saímos da marina para uma sessão em ondas gigantes rezamos e pedimos a Deus proteção não só para nós, mas para todos dentro d’água. Além disso, sabemos o que estamos fazendo e temos consciência do perigo que corremos e isto é muito importante. E a cada swelll é sempre uma alegria enorme poder voltar para casa, contando sempre uma história nova. Eu amo isso.