Biano Bianchin

É uma tarefa bem complicada tentar descrever e resumir a trajetória de um mito do Skate Nacional. Mas irei tentar. Quando conheci o Biano, ele já era um ídolo do Skate brasileiro. Foi e continua sendo o tipo do cara que serve de estímulo para qualquer pessoa que deseja percorrer o caminho de um sonho e conquistá-lo com muita perseverança e luta. Nossa amizade teve início em meados de 1995 quando o Corcel Azul 70 e poucos e carinhosamente apelidado de Trovão Azul cruzava as ruas de São Leopoldo com destino a Porto Alegre em buscas de picos e novas sessions. Era época de pistas na cidade, Roller Brothers, Roller Point entre tantas outras que agora não me vêm à cabeça. Para a amizade foi um passo, ou melhor, um ollie e logo já fazíamos sessões. Eu fotografando e ele andando. Descrever Biano Bianchin não é nada fácil, ainda mais quando quem o tenta fazer é um amigo. Talvez Biano seja uma mistura de humildade, simplicidade, determinação, garra, sonho, perigo, explosão e carisma que no meu ponto de vista são fundamentais para trilhar uma meta e ir atrás de um sonho até que ele se realize. Pois não há nada de importante na vida que não exija sacrifícios e algum perigo. Quem sabe, ele seja aquilo que os seres humanos têm em comum e que se revela nos mitos. Histórias de nossas vidas, de nossas buscas da verdade, da busca do sentido de estarmos vivos. Os mitos são pistas para as potencialidades espirituais da vida humana, daquilo que somos capazes de conhecer e experimentar interiormente. Caindo, levantando e aprendendo. O mito é o relato da experiência de vida. Talvez a frase Minha Alma Sobre Rodas possa dizer um pouco mais sobre quem é Biano Bianchin.
Texto e Fotos: Jean Schwarz
S - Você está fazendo 20 anos de skate. O que representa estas duas décadas?
Representa muito, né cara. Muitas coisas boas, muitos acontecimentos legais, manobras e amizades. Pô, só alegrias nestes 20 anos em que ando. A cada dia que passa quero aprender mais, andar mais. Ter mais experiência e maturidade. Tenho mais vontade de andar e de fazer parte do skate. Estes 20 anos me deram experiência como skatista e como pessoa. Minha vida sem o skate não seria a mesma. Tudo o que aprendi e aprendo e tudo que sou, gira em torno do skate. Respiro o skate!
S - Quando você viu que o skate seria seu caminho e futuro?
Acho que desde a primeira vez que pisei em cima de um. Vi o primeiro num campeonato em São Leopoldo em 1988, no Duelo Skate Park. Daí, foi amor à primeira vista. Comecei a aprender manobras e vi que tinha uma missão a cumprir com o esporte e tinha que aprender muito e viver muito skate. Depois disso só busquei evoluir mais e tentar fazer com que o esporte crescesse mais. Skate na veia pra sempre!
S - Logicamente houve muitas mudanças do Biano Bianchin daquela época e o de hoje em dia. Você saberia me dizer qual foi a principal delas?
Sem dúvida a maturidade, cara, a visão que tenho do skate e da vida…Cresci como homem e como ser humano. Além de ser skatista, hoje sou um pai. Tenho minha casa, minha esposa e filha. Acho que ter vivido estes 20 anos em cima do skate me fez evoluir muito.
S - Você é considerado por muitos um mito do skate Brasileiro. Você imaginava que um dia receberia um título como esse?
Pra falar a verdade nunca imaginei nada, nunca pensei que o skate me daria tanta felicidade, tantos amigos, tantas coisa boas. Eu só pensava em andar e me divertir. Até hoje falo para quem está começando, meu…faz o que gosta e faz bem feito. Porque o resto é tudo conseqüência. Tudo é resultado de empenho, humildade e responsabilidade. Quando a gente faz com o coração as coisas acontecem.
S - Você influenciou muitos atletas que surgiram e principalmente abriu as portas aqui no Sul. O que isso significa para você?
Orgulho, sabe. Sensação de missão cumprida… e feliz cara!
S - Pois então, você saiu da sua terra natal , São Leopoldo, com 15 anos de idade, arrumou as malas e veio para São Paulo. Numa época que ninguém imaginava fazer isso. Você acha que sua ida para Sampa, ainda garoto, foi fundamental para construir sua carreira como Skatista Profissional?
Com certeza! Se não tivesse vindo pra cá, seria mais um. Tinha que fazer isso, essa era a minha missão. Caí na estrada moleque e vim atrás do meu objetivo. Lutei muito por isso. Foi difícil, abri mão de ficar com minha família, longe da minha terra. Acho que, se de repente não tivesse feito isso demoraria um pouco mais para se abrirem as portas e reconhecerem o Sul como um expoente de excelentes atletas. Na verdade nunca deixei para fazer amanhã o que posso fazer hoje.
S - Quais foram as influências do Biano Bianchin?
No começo era o pessoal que andava de skate em São Leopoldo, o Jubi, Buléo, JM. Depois que comecei a conhecer outros atletas, Danny Way, Chris Senn e John Cardiel que foi um cara que gostava muito do estilo dele andar, o próprio Bob Burnquist. Teve uma época em que éramos muito ligados, sempre em contato. Eu ia para casa dele em São Francisco (USA), me espelhava muito no profissionalismo dele. Foi um cara que também sempre buscou alcançar seus objetivos. Batalhou, teve perseverança. Me orgulho muito de ser amigo dele.
S - De onde vem essa determinação, garra e agressividade em andar de skate?
…(pensa). Muita adrenalina no corpo, cara. Muito "Skate na Veia", pra mim é skate or die. Viver pra andar, andar pra viver.
S - Você passou para profissional em 1993 e já correu como Pro o inesquecível campeonato, em Santa Cruz do Sul. Como foi essa época?
Foi o começo de uma nova era, foi meu primeiro campeonato como profissional. Vi meu sonho se realizando e sabia que muita coisa iria acontecer na minha vida.
S - O Biano sempre foi um skatista de rua, streeteiro. Você chegou a correr campeonato de Vertical. Me explica isso.
Para mim skatista tem que ser completo. Saber andar na rua, pista e vertical. Skate é um todo. Na real, onde tiver um lugar que dê para andar tem que andar. Tudo é skatável…half, street, corrimão…o skate é isso!
S - Então, o corrimão é um dos seus maiores fortes no skate. De onde vem, digamos, essa "vocação" para corrimão?
Acho que todo skatista que gosta de desafiar o medo e se superar gosta de descer corrimão. Quando comecei a andar em corrimão, cada vez que andava sentia uma vontade maior de descer. Sempre aumentando, 3 d’graus, querendo mais e cada vez buscava corrimãos maiores, com curva, com quebra, então, daí vem aquela sensação de euforia, de adrena mesmo. Tudo isso, de vencer o medo… Acho que é um obstáculo perigoso e que te desafia muito, como na vida.
S - Qual foi o maior corrimão que você já desceu? E o que passa na sua cabeça antes e depois de "botar pra baixo" num corrimão?
O maior foi o da Via Dutra, cara. Estávamos viajando em turnê e, quando o vimos, paramos na hora na beira da estrada para vê-lo. Ninguém queria descer e no começo também não queria. Era um corrimão de 19 metros de extensão e todo torto. Foi uma guerrilha de 1 hora a 1 hora e meia. Caía, levantava, subia aquela baita escada até que desci. Foi pôster numa revista.
Passa um filme, milhares de coisas. Na verdade esse é o teste e o melhor é tentar não pensar em nada. Porque, se você pensar nele você não vai descer de jeito nenhum. Muito perigoso! Precisa estar bem focado.
S - Seu obstáculo preferido?
O skate não seria nada sem um bowl, half, piscina, corrimão, escada e borda. O skate só é o que é porque existe tudo isso.
S - Só num episódio de corrimão você machucou feio. Pensou o que depois da queda?
Logo depois da queda, o que passava na minha cabeça era que tinha que levantar e voltar para descê-lo. Era voltar para terminar o que eu havia ido fazer: Descer o corrimão de Boardslide, filmar e fotografar.
S - Na imagem da queda que resultou na cirurgia para reconstrução dos ligamentos do joelho e que te deixou 5 meses longe do esporte, o que você mudaria naquele dia antes de se jogar?
O que mudaria naquele dia antes de me jogar? Não mudaria nada, cara! Era para acontecer, todo mundo que se joga em corrimão está sujeito a isso. Naquela hora tava tudo perfeito, estava com o skate no pé e na vontade de descer. Eu já tinha andado nele e descido até o final, mas ainda não tinha voltado. O problema talvez é que achei que teria que pegar mais gás e coloquei uma madeirite um pouco mais acima do drop. Preferia ter me esborrachado do que ter rompido os ligamentos do joelho. Acho que na hora do tombo, tinha que ter batido a cabeça e não o joelho.
S - E como foi, para um cara que desde que começou a andar de skate e que nunca ficou menos de 24h sem andar, acabar ficando todo esse tempo parado?
(pensa) Foi difícil pra caralho! Nunca tinha passado por isso. Tinha medo de não conseguir mais andar como andava. Achava que nunca mais seria o mesmo, que não faria as mesmas manobras: pular os barrancos, descer os corrimãos. Por um lado tudo isso é muito bom, porque te fortalece e põe tua cabeça para pensar. Tem que sair pra luta ao invés de ficar se lamentando. E, claro, a minha sorte foi a estrutura familiar. Sabia que ia depender de mim para voltar a andar de skate logo. Fazer o máximo de fisioterapia, natação, musculacão e bike. Me lembro que ia de São Leopoldo a Novo Hamburgo de bicicleta para fazer fisioterapia. Eu vivia para isso, para minha recuperação ser o mais rápida possível. A minha vontade era tanta que ficava em casa montando skate. Tinha uma época que tinha vários skates montados espalhados pela casa de tanta vontade de andar novamente.
S - Existe algum segredo para descer corrimão?
Não tem segredo. É como uma escolinha, tem que começar nos pequenos, médios e depois grandes. Ter muita atitude, coragem e skate no pé.
S - Como você lida como medo?
Tento esmagar o medo. Medo todo o mundo tem. Tentar e esquecer que ele existe é o caminho. Não pensar no medo é a melhor maneira de lidar com ele.
S - Recentemente foi lançado o "Minha Alma Sobre Rodas", DVD que conta sua história no skate, fale um pouco do DVD.
Antes de mais nada o DVD pra mim representa um troféu, uma coisa muito valiosa. Todo mundo que anda tem essa vontade e a Reef me deu essa condição de realizar esse sonho. Acho legal os pais verem para incentivar seus filhos. Legal, porque mostra que nada veio fácil. Houve muito esforço e luta de crescer no esporte.
S - Num depoimento no seu Dvd, o skatista Old School Marcos Et disse que não tem como definir o seu skate. E você tem como defini-lo?
Agressivo em todos os terrenos. Skate com vontade, com amor.
S - Então, hoje em dia, você tem model de tênis, shape, truck e roupas. Imaginou algum dia que chegaria nisso?
Cara, quando se começa, a gente imagina e ao mesmo tempo não imagina. Pensa e sonha, né? Acho muito legal tudo isso. Como uma recompensa por todos esses anos de muito trabalho dedicado ao esporte. Mas sei que não é pra sempre, cara. Tudo é relacionado com o nome. Sempre digo que o nome é um grande patrimônio.
S - Além de andar de skate, você participar efetivamente do esporte no seu "Backstage" atleta e Team Manager da Volcom. Como funciona?
Então, comecei com a Volcom há 8 anos. Eu e o Diego (Marketing), montamos a equipe e trabalhamos desde o começo juntos. Sempre me envolvi com os anúncios e fotos. Já tinha o contato com a Volcom lá de fora antes mesmo de entrar na marca aqui no Brasil. Daí os gringos me chamaram para desenvolver esse trabalho pelo tempo de skate e de empresa. Acho muito importante os skatistas estarem desenvolvendo esse tipo de trabalho. O Skate Business precisa da gente para fazer o esporte acontecer como deve acontecer.
S - Das grandes promessas que estão surgindo, em qual você mais acredita e por quê?
Destaco o Luan de Oliveira e o Filipe Ortiz que estão arregaçando. Me vejo um pouco neles. Eles têm o amor pelo skate e respiram o esporte 24h. Fomos para os Estados Unidos e eles acabaram fechando com a marca e também com outras como: Blind e Flip. O Ortiz tem uma base fudida, tem estilo, e o Luan dispensa comentários. Os moleques estão arregaçando!
S - Como construir uma carreira de êxito como atleta profissional e qual fator determinante para que isso aconteça?
Muito trabalho, perseverança, responsabilidade e humildade. Sei de onde vim e sei onde estou.
S - Hoje em dia, vejo que é um pouco mais fácil ser Profissional de skate. Porém acho que para se manter no topo já é mais complicado. Como se manter ainda no topo?
Profissionalismo, cuidando do corpo, tendo prazer e amor em fazer o que se faz. Acho que ter prazer no que a gente faz, não tem idade, época, fase e tempo que vão mudar isso.
S - Nestes dias que passei em sua casa, em Sampa, produzindo esta entrevista para a SOLTO, pude notar um cara completamente diferente do que está na rua. Um cara tranquilíssimo, muito sossegado e total família. Completamente diferente do que está na rua, sempre adrenado e à procura de picos para andar. Você sempre foi tranquilo assim em casa (risos)?
Cara, cada vez aprendendo mais. Acho que a gente amadurece e essa coisa de família, de ser pai, um bom pai, bom marido é muito importante. Acho que família é a base de tudo. Aprendi a separar bem as coisas. Sou diferente mesmo. Quando estou andando é uma coisa, quando estou em casa é outra.
S - Você e a Nandi (esposa) estão juntos desde a adolescência e, hoje, têm uma família com a chegada da Greta há 4 anos. Muito legal isso.
Pó, a Nandi pra mim é a peça principal de tudo que sonhei. Foi através do apoio dela em querer me ver crescer como homem e profissional que batalhei mais. A possibilidade de ter uma família. Ela esteve sempre do meu lado me apoiando e me incentivando. Hoje a minha família é a coisa mais importante, é meu alicerce. E a Gretinha é a minha força para continuar andando de skate e evoluindo como pessoa.
S - Biano, você viveu o auge aos 18/20 anos e agora com 33 anos. E essa constância? Parece um moleque, cheio de pique e gás.
Andando de skate, sempre em evolução. Tentando aprender manobras novas. Andando sempre com a molecada mais jovem, sempre que ando com o Paulo Galera, Luan de Oliveira, sei que tô ensinando muita coisa para eles, mas também tô aprendendo muito. Acho que, às vezes, inspiro eles. Mas eles me inspiram muito.
S - Você tem medo de ficar velho?
Quem não pensa nisso, também já tive 16 anos e o negócio é aproveitar. Andar muito de skate.
S - E quando a velhice chegar, quais serão seus planos?
Vou continuar andando de skate conforme meu corpo permitir e minha cabeça deixar. Nem que seja dando um grind numa micro-rampa ou embalando no asfalto. Vou estar participando do esporte de qualquer forma é a minha vida.
S - Você se considera um cara realizado?
Com certeza! Sou muito feliz e iluminado. Não tenho nem o que falar. Agradeço a Deus, aos meus amigos, minha família, os patrocinadores e a todo mundo que teve envolvido nessa vida. Na minha alma sobre rodas.
S - Qual o seu maior sonho?
Meu maior sonho? (pensa) De bem todos meus amigos que andam, evoluir e que o skate cresça cada vez mais. E nunca parar de andar de skate!
S - Se o Biano não fosse skatista o que ele seria?
Só Deus sabe.
S - Se você pudesse definir o Biano Bianchin em uma frase, que frase seria essa?
…difícil essa hein…(suspira). Acho que mais um cara Guerreiro que tem muita luta, perseverança, sinceridade e humildade.




