Hawaii "Living the Dream"

Texto e Fotos: Manuela D'Almeida 
Desde que fiquei de pé pela primeira vez em uma prancha e, mais tarde, quando defini aquele esporte como meu estilo de vida, já comecei a sonhar com o dia em que conheceria o famoso arquipélago havaiano. A idéia de surfar em um lugar histórico, a vontade de sentir o tão falado aloha spirit e a possibilidade de cruzar com meus ídolos e heróis eram alimentados cada vez em que folheava as revistas de surf com imagens de cada nova temporada.  Com o tempo, acabei escolhendo o jornalismo e a fotografia de cultura surf como profissão, e estas escolhas aproximaram o Hawaii ainda mais de mim. Posso dizer que trazer fotos da temporada havaiana e tentar pôr em palavras o que presenciei lá é um sonho realizado. 

O North Shore da ilha de Oahu, localizado no arquipélago havaiano, é um lugar único no mundo. Conhecido pelos americanos como 7 mile-miracle (O milagre das sete milhas) o lugar tem a façanha de reunir, em uma extensão de menos de 20 quilômetros, as ondas mais potentes e fortes do planeta. Waimea Bay, Pipeline e Sunset Beach estão praticamente uma ao lado da outra. A explicação para as ondas serem tão potentes no local é o fato de que as fortes ondulações vindas do mar do Pacífico Norte chegam com força total no lado norte da ilha de Oahu, ou seja, elas não encontram nenhum obstáculo no caminho que as façam perder força. No momento em que atingem a costa, as ondulações se deparam com o fundo rígido, de lava vulcânica, e duplicam de tamanho. Por essa razão, a potência do oceano pode ser sentida com tamanha intensidade e a impressão de quem está na beira da praia é a de que a terra está tremendo. Esses swells ocorrem com uma maior freqüência durante o inverno no Hemisfério Norte, e por essa razão o North Shore é o destino mais procurado pelos surfistas do mundo todo durante os meses de novembro a março.

Ficando por mais de dois meses no local, posso dizer que realmente senti a energia do lugar e vivi o espírito havaiano. Tive o privilégio de acompanhar a entrada de grandes ondulações e vi todos os picos quebrarem em condições clássicas. Assistindo a todo esse show de surf e tendo a possibilidade de ver de perto e conviver com muitas lendas e heróis do surf, entendi por que o North Shore continua sendo o destino obrigatório dos principais surfistas do mundo. Podem descobrir ondas gigantes na França, na Tasmânia, no oeste de Austrália, mas é só neste pedaço de terra que você tem a chance de acompanhar, da areia, ondas cabulosas quebrando, enquanto surfistas são coroados com os melhores tubos da temporada, do dia e de suas vidas.

Cada praia do North Shore tem sua peculiaridade e seu encanto. Neste pequeno trecho de terra existem ondas para todos os tipos de pranchas e para os surfistas das mais diferentes idades e com os mais distintos interesses. Uma única rua principal, a Kamehameha Highway, liga e transporta toda essa gente e apenas um supermercado e uma padaria abastecem os surfistas vindos das mais diferentes partes do mundo. Esse clima rural, tão almejado pelos nativos havaianos, traz esta aura mítica e histórica ao North Shore, tão diferente da populosa Honolulu que está a poucos quilômetros dali.

Nunca em nenhum lugar respirei tanto a cultura surf. Eu achava fantástico o fato de, ao caminhar pela ciclovia, que liga a baía de Waimea até a praia de Velzyland, cruzar com vários surfistas pedalando tranqüilamente com suas pranchas debaixo do braço. Podiam ser mulheres, jovens, groomets, seniors ou bodyboarders. Essa cena me emocionava tanto e traduzia o verdadeiro feeling do aloha spirit. Outras cenas traduzem esta magia havaiana e nos fazem entender por que os verdadeiros havaianos encaram o surf como uma prática espiritual. Um exemplo seria ver as famílias chegando unidas na praia de Waimea quando “a gigante” desperta e acompanhar a meditação dos surfistas antes de encararem bombas de 18 pés com suas gunzeiras, enquanto os filhos esperam ansiosos na areia. Outros momentos seriam assistir ao pôr-do-sol em Sunset Beach ouvindo o som do Ukelele tocado por alguns nativos; ver homens insanos desafiando Pipeline de paddleboard; olhar groomets entubando e decolando em Rocky Point… Essas cenas havaianas marcam e são tão únicas como as bombas de água que surgem a cada nova temporada.

WAIMEA

Provavelmente a onda mais mágica do North Shore e a que mais representa a cultura havaiana. Ver Waimea quebrar é uma verdadeira bênção. É uma das baías mais bonitas que já vi e a energia de lá é muito forte. A figura de Eddie Aikau é muito lembrada e parece que ele ainda está presente, vigiando a baía lá da casa dos salva-vidas.

Infelizmente ela quebra somente com ondulações muito específicas e grandes, funcionando melhor com swell de norte e nordeste. Quando a onda quebra na chamada bolha, a partir de dez pés, é a onda de Waimea. Quando a onda quebra nas pedras com um tamanho de até quinze pés, se trata de Pinballs. O pico segura ondas de  até 30 pés, sendo que com mais de 20 pés eles chamam o evento “Eddie would go”. Acima disso, a baía fecha e o surfe só se torna possível de tow in e em outros picos.

Dani Speng, Clark, Brock Little, Andrew Marr, Maya Gabeira, Garret McNamara, Jamilah Star, Rodrigo Resende, Johnny Lopes costumam surfar no pico.

OS LUMMERTZ EM WAIMEA

São seis e da manhã, o céu ainda está escuro e o barulho das ondas já está muito alto. Neste momento, os irmãos gaúchos Igor e Jairo Lummertz já estão colocando as gunzeiras no carro e deixam a casa em Pupukea rumo à baía de Waimea.

Chegando no pico, tiram as pranchas do carro e, “adrenados”, remam para o canal em direção à onda. No outside, o dia já está clareando e o horizonte some na hora  em que morras de 18 pés surgem na baía. No line up, além dos guerreiros gaúchos, encontram-se as maiores lendas de Waimea. Não se tratam de pros, mas, sim, de surfistas da família Waimea que carregam a onda no coração. E pode-se dizer que esses bravos gaúchos também fazem parte do seleto grupo.

Depois de conviver em diversos momentos da temporada com os irmãos Lummertz, incluindo sessões de surf em Rocky Point e durante dois swells em Waimea, é durante um churrasco realizado na famosa baía que os encontro para conversar. Neste dia, os maiores big riders de Waimea estavam reunidos em um churrasco para se despedir do sul-africano Andrew Marr. Este estava deixando o North Shore depois de mais uma temporada de boas ondas. Surfistas como Clark, Andrew Marr, Coby e os mais novatos Ian Walsh, Maya Gabeira e Jennifer dividiam a mesa relembrando as melhores ondas do último swell.

Segundo Jairo e Igor, Clark é o verdadeiro surfista de Waimea: “Ele é impressionante. Surfa sem leash, completa todas as ondas e só desce nas bombas do dia”. Já entre as mulheres, Igor conta que as brasileiras são as mais sinistras, sendo  Maya a mulher que mais impressiona e inspira confiança no momento de dropar junto: “Em Waimea funciona assim, depois de um ano surfando lá, os caras pegam confiança em você e passam a dropar a onda contigo”, revela o irmão mais novo.

Igor, de 28 anos, foi o primeiro Lummertz a desbravar o Havaí e, depois de dois anos lá, convenceu o irmão mais velho, Jairo, de 34 anos, a visitar o North Shore: “Deixei tudo. Foi como nascer de novo. Fui me envolvendo cada vez mais com o lugar e não consegui voltar… mas ainda tenho o sonho de voltar para o Brasil”, revela Jairo.

Antes de viajarem para o Hawaii, a dupla Lummertz tinha uma trajetória na história do surf gaúcho. Os dois competiam no Circuito Gaúcho e, em uma  determinada época, chegaram até a organizar campeonatos na praia de Mariluz, onde eram locais. Jairo conta que sonhava em ser surfista profissional, mas que não tinha surf para isso, apesar de ter sido quatro vezes campeão gaúcho amador na categoria Longboard e uma vez campeão brasileiro na mesma categoria. Já o mais novo, também foi por três vezes campeão gaúcho na categoria longboard, fora outros títulos em outras categorias.

Jairo conta ter percebido desde cedo que trabalhar engravatado em um escritório, não fazia a sua cabeça. Acabou descobrindo, com 13 anos, a vontade de shapear pranchas. Então, criou a marca Cuscabarone e por anos shapeou pranchas, sendo conhecido no meio do surf gaúcho e considerado local nas praias de Mariluz e Tramandaí. O shaper revela continuar criando pranchas com os mesmos shapes usados anteriormente no Brasil: “As pranchas são exatamente as mesmas e funcionam muito bem aqui. Eu também continuo produzindo longboards, mas o grande diferencial são as gunzeiras. No Brasil você não encontra blocos de 10, 11 pés, algo muito comum aqui”.
Eles ensinam que para surfar Waimea é necessária uma prancha de no mínimo 10 pés: “Na minha primeira temporada não consegui surfar Waimea, pois só tinha uma prancha oito pés. Mas, mesmo assim, entrava no canal e ficava olhando os outros surfar. Nos meses seguintes adquiri uma 10'4 e na segunda temporada já botava para baixo. Desde então não perco um swell”, revela Igor que recém completou seis temporadas havaianas.

Jairo encontra-se na sua quarta temporada e conta que suas primeiras experiências em Waimea foram adrenalizantes: “Na primeira vez que surfei Waimea as ondas estavam pequenas, então foi fácil de me soltar. No entanto, na segunda vez apareciam séries de mais de 25 pés havaianos! Foi no dia em que realizaram o último evento em homenagem a Eddie Aikau. Consegui pegar umas quatro ondas mas achei que iria morrer”. O big rider assume ter conhecido melhor o pico através dos anos, sendo que hoje já se sente bem confiante. Ele também revela já estar “formado” nesta faculdade de surfe: “ Surfar no Hawaii é como se você estivesse em uma faculdade do esporte. Aqui existem vários tipos de ondas, pranchas e pessoas. É realmente uma grande experiência de vida”.

Os dois, que atualmente alternam sessões de surfe com o trabalho pesado em uma fazenda, assumem sentir muita falta dos amigos, da família e das praias do sul. Eles pretendem voltar ao Brasil em algum momento, mas por enquanto ainda preferem representar o Estado no line up de Waimea…

SUNSET BEACH

Uma das praias mais bonitas do North Shore e realmente um dos lugares mais mágicos de ver o pôr-do-sol. A onda de Sunset é realmente muito pesada e, nos dias clássicos, quebra com ondas de 8 a 12 pés. Ela funciona com quase todas as ondulações de inverno e nos dias grandes é uma ótima preparação para Waimea.
Ken Bradshaw, Sunny Garcia, costumam surfar no pico.

PIPELINE

Provavelmente a onda mais famosa do North Shore e, dizem os profissionais, que é a onda que mais matou gente no mundo. Funciona melhor com swell de oeste ou nordeste, portanto Pipe é sempre diferente, sempre um novo desafio. É um dos lugares mais disputados do North Shore, sendo praticamente impossível pegar uma onda da série.

Tamayo Perry, Jamie O`Brien, Nathan Fletcher, Braden Dias, Jamie Sterling, Kala Alexander, Makua Rothman, Jason Frederico, John John Florence são os locais do pico. Mas, nesta temporada, Jamie O`Brien e Nathan Fletcher foram os que mais se destacaram. Entre os brasileiros que melhor representaram a bandeira brazuca no pico estão: Danilo Couto, Stephan Figueiredo e Binho Nunes.

ENCONTRO FEMININO

Durante o mês de janeiro, presenciei um encontro no North Shore muito marcante para o surf feminino gaúcho. Pelo menos para mim. Lembro que quando tinha 15 anos passei a participar de algumas etapas do Circuito Gaúcho Amador e foi nestas etapas que conheci a Sabrina Munhoz e a Gabriela Rangel. Lembro que durante uma competição em Tramandaí anunciaram no palanque que algumas meninas estavam procurando associadas para a recém-lançada Associação Gaúcha de Surfe Feminino. Fui correndo me inscrever e neste momento conheci “as meninas da associação”. Lembro com muito carinho dessa fase e da diversão que tínhamos naqueles surf treinos. Naquela época eu não tinha carro e nem amigas que surfassem, por isso tenho muito carinho pela associação e ainda tenho orgulho de ter sido a primeira associada.

Cruzei com a Sabrina Munhoz logo nos meus primeiros dias no North Shore e depois daí passamos a nos ver direto e dividir algumas sessões de surfe. Quando ela me contou que as gêmeas Gabriela e Bibiana Rangel viriam visitá-la em janeiro, fiquei muito feliz. Durante a passada das meninas registrei uma sessão delas em Rocky Point e batemos um grande papo sobre a Associação e sobre surf feminino. Atualmente nenhuma delas trabalha com surf, nem compete profissionalmente, mas o surf continua muito presente em suas vidas. Elas lembram com muito carinho dos quase três anos em que a Associação funcionou e lamentam a falta de apoio que tiveram na época: “Acho que o surf treino ergueu muitas marcas e acho que elas deixaram de erguer o surf treino”, revela Sabrina que chegou a encarar Waimea na sua primeira temporada.

A Sabrina Munhoz, de 27 anos, atualmente estuda educação física e tem planos de trabalhar com surf feminino. A Gabriela Rangel, de 24 anos, atualmente mora na Califórnia e não pretende voltar a morar no Brasil. Ela anda estudando por lá e neste meio tempo fez várias surf trips, sendo que esta foi sua segunda temporada no Hawaii. Já a Bibiana Rangel mora em Porto Alegre e trabalha como professora, atuando na alfabetização de alunos de primeira série e tem planos de fazer mestrado. Bibi ainda compete por diversão em campeonatos de interassociações.

VELZYLAND

A praia é linda e a onda é uma verdadeira delícia. Como em todos os outros lugares do North Shore, é legal tomar cuidado na hora de entrar no mar, pois o pico é raso é o coral é bem afiado. Apesar de a onda ser bem cavada, se trata de uma das opções mais “tranqüilas” do North Shore. A direita proporciona bons tubos, enquanto a esquerda é um pouco mais longa. É um lugar muito crowdeado e lugar de groomets.
Coco Ho, filha de Michael Ho, e o fenômeno Carissa Moore são presenças constantes em Velzy. 
 
OUTRAS ONDAS:

Haleiwa, Laniakea, Jocko`s, Lef Over`s, Marijuana`s, Waimea Shore break, Log Cabins, Ehukai,Gas Chambers, Val`s Reef, Backyards, Freddyland, Phantoms. Alguma vai fazer seu gênero…

ROCKY POINT

É um dos picos mais constantes do North Shore e na verdade é surfado pelos profissionais apenas quando não há entrada de swell grande. A direita chamada de Rocky Rights é uma onda muito rápida e rasa e proporciona bons tubos. Já a esquerda, Rocky Lefts, é um pouco mais longa. A proximidade da onda com a praia faz do lugar um verdadeiro estúdio fotográfico. O pico fica crowdeado de profissionais em busca de imagens e a areia é repleta de fotógrafos e gente bonita.

Acho que o surfista mais ilustre, e local do pico, é o cantor Jack Johnson. Jack tem uma casa bem em frente à Rocky Rights e você acaba acostumando com a presença dele diariamente!

Galera de passagem…

GAÚCHOS

Os atletas gaúchos realmente fizeram bonito nesta temporada em Pipeline. Ricardo Azevedo, atleta freesurf, foi um deles. A intimidade que ele tem com o pico já vem de outras temporadas. Ficando mais de dois meses na praia de Sunset Beach, Azevedo botou para baixo nos picos de Off The Wall, Sunset, Pipe e Waimea.

Já Pedro “Manga” Aguiar, com seu jeito próprio, chegava sempre quieto, sentava no line up e esperava a sua bomba. Pedro realmente gosta de desafios e esperava a hora certa para botar para baixo. Muitas vezes, nem esperava a hora tão certa assim. Ele realmente não tem medo de tomar caldo. Um dos picos em que ele mais se destacou foi nos tubos de Off the Wall.

CATARINAS

O pessoal de Santa Catarina também compareceu em peso na temporada. Guilherme Ramalho e Ícaro Ronchi chegaram em boa hora no North Shore e surfaram ótimos swells. Aos poucos foram pegando intimidade com Pipe e marcavam presença toda vez que Rocky Point estava clássico. Outro catarina que voou bastante em Rocky point foi o Yuri Castro, da Lost. Enquanto Yuri mostrava seu surf progressivo, o filmmaker Eric registrava as imagens para mais um projeto deles.

Com certeza Santa Catarina é um dos lugares do Brasil que mais reúne atletas “radicados”. Binho Nunes, Fábio Gouveia e a revelação do Uruguai, Marco Giorgi, carimbaram presença no North Shore e contribuíram positivamente para a imagem dos brasileiros, e da galera do sul, no North Shore nesta temporada. Representando o time feminino, estava Gabriela Leite, de 15 anos, que se jogou bastante na sua primeira