Dedo no Pé

Não se tem muita certeza de onde e como o fingerboard começou, mas tomasse por base a imagem do video “Future Primitive” da Powel Peralta, onde aparecia o skatista Lance Mountain andando numa pia de cozinha com uma miniatura de skate, dando umas manobrinhas de vertical (inverts e tal). Isso lá por volta de 1985. Mas nunca se levou muito a sério, claro, era interessante, afinal de contas era algo novo, nunca antes visto, mas ficou por isso mesmo. Texto e Fotos: Jean Schwarz

Por volta de 1989 na Alemanha, um cara chamado Martin Winkler começava a levar essa história mais a fundo, fazendo seus próprios fingerboards, totalmente precários, tudo na base da vontade mesmo (como pode ser visto no vídeo Pissing Fingers 1). O tempo passou, Martin continuou nessa, até que por volta de 1997 aparece no mercado a Techdeck, com fingerboards muito mais parecidos com o skate real, tendo inclusive desenhos (gráficos) licenciados por algumas marcas de skate, sem contar os trucks de metal extremamente iguais aos de skate normal. Logo em seguida, por volta de 1999 aconteceu o que se conhece como o primeiro “boom” do fingerboard (em alusão aos diversos “booms” que o skate também teve). Foi uma época realmente insana, TODO mundo tinha um, todo mundo tentava dar as manobras de skate, mas sem muito compromisso, até pq ninguém tinha muita noção de como dar as manobras, considerando que não existia informação alguma.

Eu particularmente comecei a andar em 1998, um ano antes do boom, então eu vi tudo acontecer, desde a febre até a “morte” e esquecimento total dos fingerboards. O período do boom foi meio prejudicial pra imagem do fingerboard. A loucura em cima era tanta que muitas “empresas” falcatrua começaram a lançar as coisas mais bizarras imagináveis do tipo mini bermudas, mini tênis e coisas do tipo, todos tentando algum lucro fácil com uma moda passageira. Óbvio que acabou ficando uma imagem extremamente ruim, inclusive entre o pessoal do skate, onde a maioria tinha a idéia de ser simplesmente “coisa de criança”. Nessa época do boom chegou a se ter matéria na tv como no Jornal Hoje e em revistas como a Veja, tamanha foi a repercussão.

Porém por volta do ano 2000, o fingerboard praticamente morreu aqui, mais por culpa da Techdeck parar de vender seus produtos aqui (o que acabou acontecendo mais tarde em outros paises, hoje eles basicamente vendem pros EUA e pra alguns paises da Europa). Foi realmente triste de se ver, especialmente quando tu vê tudo de dentro.....

Nessa época a salvação eram os fingerboards de camelô e de R$1,99. A qualidade deles era terrível, mas como não se tinha outra opção, usou-se o que era possível. Era tão difícil de continuar andando que até nos camelôs e R$1,99 da vida era difícil encontrar algo, então como os fingerboards também estragam, assim como qualquer outro produtro, a gente tinha que maneirar, não pegar muito pesado pra economizar as peças, principalmente os trucks que quebravam relativamente fácil, que ainda hoje são um dos maiores problemas que a gente encontra.

Falando em termos de praticantes, não quero soar meio “trágico”, mas eu tinha certeza que em determinado momento só eu continuava andando no Brasil inteiro. Nessa mesma época, os pouquíssimos praticantes do mundo inteiro se reuniam em alguns fórums da Internet, mais pra trocar informação (o que se conhece hoje pela cena “americana”). Esses forums foram e ainda são muito importantes.Fazendo um resumo rápido, foi neles que o pessoal começou a fazer as primeiras filmagens, foi onde surgiram as primeiras “crews”, e conseqüentemente, as primeiras marcas.

A questão das marcas é realmente interessante, pois começou com um vendendo lixa, depois apareceu outro vendendo amortecedores (os produtos mais fáceis de se conseguir), até que finalmente apareceu a primeira marca de shapes de madeira, a Animaux. Isso depois de alguns anos, lógico. Naquela época era tipo um sonho ter um shape de madeira. Paralelamente na mesma época, a cena na Alemanha começava a crescer mais rápido, com o surgimento da Blackriver Ramps (obstáculos perfeitos) e da Berlin Wood (shapes de madeira). Os shapes Berlin eram extremanente perfeitos pra época, era praticamente impossível ter um daqueles até em questão do preço. Nisso a cena alemã foi crescendo, pois tinha principalmente uma empresa que fabricava obstáculos, o que possibilitou os primeiros campeonatos.

Voltando a falar da cena americana, tudo era muito precário, poucos praticantes, algumas poucas marcas, mas a questão é, um foi ajudando o outro, um ensinando o outro a como fazer shapes e quaisquer outros produtos, a gurizada literalmente deu a cara a tapa e se jogou a testar materiais, foram aprendendo os processos, nesse meio tempo eu comecei a Evolve, a 5 anos atrás, minha humilde marca, que ta aí até hoje, foi a primeira do Brasil e uma das primeiras do mundo, lógico que eu também dei minha ajudinha na evolução e fiz um dos primeiros (se não o primeiro) shape com concave e com um acabamento um pouco mais definido.

Naquela época todos os shapes tinha basicamente o mesmo formato, kicks baixos e nenhum concave, acabamento bom mas sem nada de verniz e coisas do tipo, e os Evolve vieram completamente diferente de tudo, então vocês podem ter idéia de quanto coisa eu tive que ouvir, mas hoje em dia já praticamente não existem shapes sem um bom acabamento e o concave veio e ficou.

Hoje na verdade existem shapes de diversos formatos, kicks altos-concave fundo-tamanho mais curto, kicks baixos-concave quase inexistente-tamanho longo, ou uma mistura disso tudo..........enfim.

Nessa mesma época o pessoal começou a filmar suas manobras em casa mesmo, tudo muito precário, com webcams, ou maquinas de foto digitais, então a qualidade era baixíssima, mas foi importante, porque o pessoal pegou hábito de filmar, como no skate mesmo, e isso ajudou a evolução tanto das manobras, quanto do estilo.

O tempo passou, hoje em dia nós graças a Deus já temos a disposição várias marcas de shape, lixas, rodas, amortecedores, “tunning kits” (peças pra melhorar os trucks), mas infelizmente ainda não existem marcas de truck. Na verdade existiu uma, a Public Trucks que já fechou devido a inúmeros problemas com o cara que fazia eles. Vídeos são feitos em números muito maiores, embora a grande maioria ainda seja feita em casa, mas a qualidade tanto de filmagem quanto edição melhorou muito, hoje se dá muita atenção ao estilo e a técnica. Vale ressaltar que a maioria das marcas ainda é de fora, o que é um problema pra nós no Brasil por causa dos preços (tudo em Dollares e Euros).

A Evolve particularmente, passou por varias mudanças durante os anos, seja nos shapes, seja no time (sim, as marcas de fingerboard tb tem times, que recebem materiais da marca de tempos em tempos, em troca eles filma, tiram fotos e ajudam com o que for possível). Hoje em dia a Evolve não vende mais diretamente pro pessoal, mas sim pra algumas lojas online que compram e revendem produtos de varias marcas, muito em parte por algumas complicações com os correios. Recentemente acabamos nosso primeiro vídeo, que pode ser encontrado na Internet, pra baixar, e continuamos firme e fortes, até a diversão continuar.

No Brasil também se fez um fórum em 2005, quando já havia em torno de 4 praticantes hehehe mas hoje em dia já evoluiu, já temos em torno de 30 praticantes ativos, e já surgiram pelo menos 3 novas marcas, a Downtown e Iron Cross (shapes) e a OK Ramps (obstáculos e shapes), fora a Evolve que continua na ativa. Por termos tão poucos praticantes no Brasil, fica difícil da gurizada se encontrar pra andar junto, considerando que a maioria são de estados diferentes, como Paraná, Santa Catarina, Bahia, Distrito Federal, São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo. Nesses estados é onde se encontra a “maioria” dos fingerboarders. Estamos tentando organizar um encontro geral, que esta marcado pro mês de Julho, em Santa Catarina, se tudo der certo, talvez acontece o 1° campeonato brasileiro de fingerboard. Bem doido assim eheh.

Felizmente hoje em dia já temos a opção de poder comprar peças, mesmo que seja de outros paises, mas eu não tenho duvida de que se a gurizada tivesse a oportunidade de ir numa loja de skate na sua cidade pra comprar peças pro fingerboard, teríamos muito mais praticantes. Em suma, desde 2000, fomos praticamente abandonados a própria sorte e se o fingerboard ta aí até hoje, é pq teve alguns poucos malucos que continuaram, e mesmo hoje em dia, tudo é muito feito na base do do-it-yourself, ou seja, quem toca pra frente é a própria gurizada que anda, quem faz alguma coisa acontecer somos nós mesmos.

Ainda estamos longe do nível que a Alemanha chegou, lá hoje existem diversos campeonatos, as grandes marcas chegam a fazer tours por outros paises, o numero de praticantes é realmente alto, eles inclusive já lançaram alguns DVDs, filmados com câmeras de alta qualidade, enfim, lá é outra história, MAS eu afirmo que em nível de manobras, nós não deixamos a desejar, o nível em qualquer parte do mundo é muito igual, mas em termos de estrutura, a Alemanha está anos luz de qualquer outro lugar.
Hoje em dia eu posso afirmar que o fingerboard é mais forte na Alemanha, na Polônia, na Áustria, na Suíça, nos Estados Unidos, no Brasil, na França e na Rússia. Esses são os paises onde o fingerboard está mais desenvolvido, mas vale dizer que o fingerboard evolui num ritmo insano, tanto em relação a manobras, quanto a produtos, campeonatos, filmagens e tudo mais, realmente evolui muito rápido, e esperamos que continue assim e se Deus quiser algum dia talvez possamos ter uma “cena” real no Brasil. Algumas demos já foram feitas, principalmente na Bahia, e aqui no RS nós já tivemos uma cobertura maior dos meios de comunicação, eu pelo menos já fiz 4 matérias pra TV, 1 pra jornal, e algumas pra zines, enfim, cada um faz o possível pra tentar levantar o fingerboard, de maneira humilde e  honesta, e eu acho que aos poucos a gente ta conseguindo alguma coisa.

Ahh e detalhe, o Martin Winkler continua na ativa e é considerado o “Deus” do fingerboard hehehe...