Good Times!

Esses dias achei o Nego Roots, tava de gozação comigo, quando batemos um papo num final tarde no Marinha. Ele falou que o bicho tava pegando, e que o sonho dos dois malukos que criaram o jornal, que já não é mais jornal, pois virou revista, estava se tornando mais que um sonho, estava se tornando uma realidade e que a parada já era referência de mercado no Sul do País. Enfim, que ele Nego, já não tinha mais vontade própria na sua coluna, que ele tinha que a partir de agora escrever só sobre bandas e sons. Na real a coluna deixou de ser coluna e virou só um pequeno espaço no pé de uma página, para falar sobre reggae.
 
Mas voltando ao assunto, nesse espaço que me deram estou falando sobre um assunto romântico. Pelo menos assim considero. Os bons tempos do Surf sem previsão de ondas, web cams e telefones. Lembro de quando eu tinha 20 anos e que o surf era o ar que eu respirava. O sangue que corria nas minhas veias era salgado, e o único assunto que eu falava era sobre surf. Eu não tinha uma galera fixa para ir a praia, tinha sim era uma vontade animal de surfar todos os finais de semana, quer nas praias do RS ou de SC. Lembro que nem bem tinha pegado minha última onda do banho e já começava a pensar com quem eu iria armar minha próxima barca. Era algo que mexia com o meu eu, com a minha família, com a minha rotina, com o meu trabalho, com meu estudo, enfim, movia a minha vida. Tudo girava em torno de um único objetivo: surfar no fim de semana. Era uma loucura, pois a fissura era demais, e a gente ia para o litoral sem saber absolutamente nada de previsão. É te digo uma coisa, eu era considerado pé quente, e sempre tinha lugar nas barcas para mim. Lembro de uma vez, que uns brothers, passaram na minha casa antes de pegar a freeway e eu estava de aniversário, rolando umas cevas, e com altas gatas na parada. Não pensei duas vezes e peguei minha prancha e minha mochila e me mandei. A Barca era para Santa e me deu aquele cutuque, fazer o que se tinha fama de pé quente e acreditava nisso também. Ehehehehh. Eu ia para onde queria, mesmo sem ter carro próprio, pois os convites eram muitos e me dava ao luxo de escolher o lugar, sempre, é claro, pensando na grana que teria para investir. Investir, isso mesmo! Pois, simplesmente, investia todo o dinheiro que ganhava trabalhando, nas minhas surf trips e nos meus equipamentos. Lembro bem, que era tachado de doido, irresponsável e outras cositas mais, pelo fato de nunca ter grana para nada (cinema, baladas, namorada, ajudar em casa, grana para comprar meu carro, etc...). Namorada era artigo de sorte, isso mesmo. Sorte de achar alguma simpatizante de praia, de sol e de um surfista pelado, num findi semana qualquer. Eheheheheh, geralmente a gente fazia dar sorte nesse item, nem que tivesse que andar contra o famoso vento nordestão, para achar uma pretendente.

As previsões eu que geralmente criava, em cima da condição do último banho do final de semana anterior. Era imaginação de mais, tinha um coqueiro que eu olhava sempre pela manhã, na casa em frente a minha, que era como uma biruta. Terral reto, eu enlouquecia e falava nele o dia todo, só imaginando o que estaria perdendo. Era uma época boa demais, um tempo que era muito mais que uma simples ida para a praia, era a realização de um objetivo alcançado e traçado a semana toda. Eu delirava, mas delirava mesmo, quando chegava sexta à noite e a galera passava na minha casa, para me pegar.  Depois era tudo lucro. Exatamente isso, o resto era tudo lucro, não interessava o que a gente fosse encontrar, mas sim o fato de estar fazendo o que tu mais gostava de fazer.

E isso eu só me dei conta a pouco tempo, vendo que perdi o entusiasmo e o romantismo que eu tinha como objetivo de vida. Pois agora essa parada de Boletim de onda, web cam, e sites de previsão de swell, tiraram todo esse glamour, todo o life style e tudo mais, que fazia tantos outros como eu ficar sonhando e imaginando como estaria o mar, as ondas, o vento e o que eu iria pegar na próxima barca, ou seja, ficar sempre na fissura da próxima onda, na fissura da próxima trip, em busca de algo que você sonha, mas não sabe se vai se realizar.


Ass
Surfista Quarentão

lembrei dos meus vinte poucos anos

Mara, simplesmente Maravilhoso.
Me fez voltar uns 20 anos no tempo.
Caro surfista 40 e brother das antigas, continue escrevendo e contando suas trips.
Gostei muito, eu minha esposa e minha filha que esta iniciando no surf.
Alohã
Orlando e family

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