festival da nova era

Tudo começou com uma mostra de arte e cultura de surf, que tinha o intuito de divulgar que, além de uma prática esportiva, o surf era uma filosofia de vida se caracterizava como um movimento cultural. A idéia era introduzir na sociedade brasileira um pouco mais de cultura surf através de fotografias, pinturas, esculturas, pranchas antigas e uma extensa bibliografia. 

A sociedade foi respondendo, e o festival criado pela revista Alma Surf foi crescendo a cada edição. Nas próximas versões trouxe uma mostra competitiva de filmes internacionais e nacionais, depois houve entretenimento através de shows que misturavam surf music, folk e rock. O resultado foi cada vez mais positivo e acabou surpreendendo até a mídia mundial.  

Agora, cinco anos depois da primeira edição, o FestivAlma 2008 ousou mais uma vez e englobou o mercado institucional através do I Salão Internacional do Surf. A sua  programação incluiu palestras sobre mercado, ecologia, ações sociais, big surf, além de trazer estandes de diversas marcas internacionais e nacionais. Essa foi a grande novidade do evento realizado no pavilhão da Bienal do Ibirapuera em São Paulo, durante os dias 9 e 12 de julho. Mas, como nas outras edições, a iniciativa não perdeu seu caráter de “raiz”. Bem pelo contrário, a V Mostra Internacional de Arte e Cultura deste ano trouxe imagens fantásticas seguindo o tema “ação”. A maioria das fotos era de momentos de ondas grandes eternizados por fotógrafos gringos feitas pelo mundo afora. Foi dedicado um espaço para o fotógrafo brasileiro Alberto Sodré, o Cação. Junto de suas imagens clássicas, Cação escreveu um bonito texto sobre o que é ser fotógrafo de surf. Além de fotos de ondas, a Mostra contou com imagens de skate e snowboard, o que revelou a ampliação do movimento. Afinal esses esportes surgiram como extensões da arte de deslizar sobre as ondas.

Além de pinturas, esculturas e da tradicional Biblioteca, foi realizada uma “Árvore Genealógica dos Shapers no Brasil”, em que se contou a história dos shapers brasileiros que desenham pranchas desde os anos 50. Fotos e shapes de pranchas redesenhados foram espalhados pelo pavilhão. Até a paddle board, uma prancha que tem sido uma febre pelo mundo e no país, foi exposta. Ao lado das pranchas, havia uma galeria muito interessante chamada de “carros do surf”, em que modelos de carros das antigas, tais como kombis, brasílias e fuscas, foram personalizados com itens usados à época. 

Era muito para ver e absorver. Durante os quatro dias, foram exibidos os principais lançamentos de vídeos de surf que configuraram o IV Festival Internacional de Cinema. O aclamado Bustin' Down the Door mostrava a história dos surfistas estrangeiros que revolucionaram a arte de surfar no North Shore na década de 70. Outros títulos como Sliding Liberia, Waterman, Mundaka, Surfing the Mountains, Between the Lines e High Water também foram exibidos. Este último é o novo filme de Dana Brown, filho do lendário Bruce Brown (criador do Endless Summer) que teve pré-estréia mundial no FestivAlma 2008.

Repetindo a dose do entretenimento do ano passado, foi realizado também o III Festival Billabong de música. Os shows aconteceram todos os dias a partir das nove da noite. As bandas variavam em estilos e iam desde rock e jazz a música havaiana e ao groove. A grande atração foi o projeto Guru`s Jazzmatazz. Este misturava hip hop com influências do jazz, enquanto a banda The Hey Ho`s fazia um cover dos lendários Ramones.

E foi assim, englobando arte, cultura, música, cinema e mercado que o FestivAlma apresentou mais uma fez o surf à sociedade, e dessa vez nos provou que o mercado e o esporte possuem uma relação visceral, conforme as palavras do idealizador do evento, Romeu Andreatta: “Um segmento não vive mais sem o outro. O nosso problema agora é achar as novas formas. O surf tem o desafio de ser massivo, mas mesmo assim continuar sendo uma forma contemporânea da maneira de viver. Que é como nós encantamos a sociedade”. Romeu também fez uma leitura do resultado da edição deste ano: “Eu acho que mais uma vez eu ousei aqui, com esta história de botar o mercado com uma coisa tão nobre que é a arte. Mas eu acho que nós conseguimos. Primeiro porque a sociedade entendeu e aceitou muito bem. Tivemos muita mídia, eu acho que isto é um sinal, uma percepção mais respeitosa do segmento. O salão exigiu algumas coisas, mas já era hora de reler o mercado, de reavaliar e repaginar ele com uma leitura mais pop. Ela é mainstream, é classe A, B e C. E isso não precisa ser uma coisa triste ou melancólica”.

Então fica a mensagem desta nova era do surf: relembrar nosso lado old school e, ao mesmo tempo, aceitar o momento mainstream. Novos tempos.

Texto e fotos: Manoela D’Almeida